sexta-feira, 20 de junho de 2014

Em favor do capital

Antônio de Pádua Nunes Tomasi
Jornal O Tempo. Caderno Opinião. p.9. (12/6/2000)

As transformações no mundo do trabalho que caracterizam o final do século têm dado a muitos a certeza do fim do emprego. O trabalho continua, apregoam, mas o emprego acabou. Mais do que uma frase da moda, ela expressa uma ruptura no regime de trabalho, uma transformação na estrutura social onde se inscrevem, os sistemas produtivos (gestão do trabalho e da mão-de-obra: contratos, remuneração, postos de trabalho, funções...), e os formativos (formação, processos de aprendizagem, qualificação, experiência...).

Antes que a "certeza", por força da repetição, se torne verdade, pergunta-se: o fim do emprego é uma decorrência das transformações ocorridas no mundo do trabalho ou, ao contrário, se constitui apenas em um elemento que as favorece? (em um elemento a mais na luta entre capital e trabalho e a serviço do primeiro?) Em outras palavras, por que uma relação de trabalho, até há pouco tempo estável, muda? Que fatores constitutivos das transformações apontam para o fim do emprego? Que papel ocupa o desemprego no estabelecimento das novas relações de trabalho? Afinal, a que interesses o fim do emprego atende?

Aparentemente, a estabilidade das relações de trabalho sucumbiu às mudanças no modo de gestão demandadas por um mercado em expansão e em transformação (alargamento das fronteiras comerciais, mudança do perfil do consumidor, aumento da competividade...). Logo, qualidade, produtividade, redução dos custos de produção, cumprimento de prazos, tornaram-se fatores essenciais para as empresas. A flexibilização dos processos produtivos, inclusive das relações de trabalho, tem sido apontada como a forma de a empresa se manter no mercado e nele ampliar a sua presença. O taylorismo cede lugar aos novos modelos organizacionais. O operário cede lugar ao "novo artesão". O trabalhador passivo, ao trabalhador ativo. O assalariado ao trabalhador autônomo. O salário à remuneração personalizada. Os quadros efetivos de trabalhadores cedem lugar aos terceirizados. Finalmente, mão-de-obra exteriorizada e desempregada se confundem. O desemprego parece ser cada vez menos o antônimo de emprego e cada vez mais o sinônimo de novo modo de gestão da mão-de-obra.

Se voltarmos no tempo, veremos que o ingresso do trabalhador na condição assalariada, sobretudo do artesão, representava uma perda do seu saber e da sua autonomia. Perdas que se aprofundaram no auge do taylorismo e que agora são reclamadas pelos novos modelos de organização do trabalho. Contrário ao que ainda se imagina, elas foram motivadas pelos interesses do capital em controlar a mão-de-obra, em estabelecer uma disciplina, um comportamento operário adequado ao novo modo de produção, e não ao advento das fábricas ou ao desenvolvimento da maquinaria (A.Gorz,1973). A passagem do artesanato ao trabalho assalariado foi acompanhada, inicialmente, pela resistência dos trabalhadores às perdas e, em seguida, pelas reivindicações de melhores condições de trabalho (fixação da jornada de trabalho, salário, férias, repouso remunerado, piso salarial...), condições intrínsecas à forma assalariada de gestão do trabalho e da mão-de-obra.

A terceirização, o trabalho autônomo, o artesanato (referência de competência e de comportamento do trabalhador ou de modo de gestão), diferente do que se pode pensar, não resgatam a autonomia e o saber, de outrora: os tempos e os trabalhadores não são os mesmos. Mas tornam em vão muitas das lutas dos assalariados e dos seus ganhos nos últimos dois séculos. Para o trabalhador, é um começar de novo. Assim, a "certeza" segundo a qual, o trabalho continua, mas o emprego acabou, parece se referir muito mais a uma readequação da mão-de-obra aos interesses do capital do que a uma transformação no mundo do trabalho.

E o não-trabalho?

Antônio de Pádua Nunes Tomasi
Jornal O Tempo. Caderno Opinião, p.9 (15/6/2000)

As lutas dos trabalhadores pela redução da jornada de trabalho são históricas. No Brasil, depois da Constituição de 1988, os debates estão de volta. A crise econômica e o desemprego oportunizam as discussões. A redução criaria novos postos de trabalho, 3 milhões em todo país, calculam uns. A incorporação de mais trabalhadores ao mercado de trabalho poderia, ainda, aumentar o consumo, reaquecer a economia e contribuir para reverter o quadro de desemprego. A jornada de trabalho do brasileiro é mal distribuída. É zero para os desempregados e, devido ao uso da hora extra, é superior a 44 horas semanais para os empregados, acrescentam. Finalmente, lembram a incompatibilidade dessa jornada com o atual paradigma tecnológico.

Mas a criação de novos empregos não vai ocorrer na mesma proporção do total de horas de trabalho reduzidas, isto porque os empregadores colocam imediatamente em funcionamento mecanismos de intensificação do trabalho, sejam eles de ordem tecnológica ou organizacional. Os mecanismos continuarão a se desenvolver e, após algum tempo, poderão fazer o desemprego retornar aos índices atuais. Assim, argumentam outros, seria o crescimento econômico, que no Brasil não poderia ser inferior a 6 ou 7% ao ano, e não a redução da jornada de trabalho, o melhor instrumento de combate ao desemprego. A redução, ameaçam, levaria a uma perda da produtividade. Depois lembram que muitos setores já praticam uma jornada inferior à máxima legal permitida. Em um país pobre ou em desenvolvimento, como o nosso, o de que precisamos é trabalhar mais para recuperar o atraso, concluem.

Os debates, contudo, parecem se desenvolver em um campo muito restrito. Se as reivindicações dos trabalhadores pela redução da jornada repousam apenas na necessidade de se criarem novos postos, um retorno do crescimento econômico justificaria o seu aumento? A redução se justificaria apenas pela necessidade de se criarem novos postos?

O trabalho não mais se limita aos espaços tradicionais (fábricas, oficinas, laboratórios, escritórios, hospitais, etc.) e nem a uma jornada legal. Ele invadiu o espaço e o tempo do não trabalho. Muitas atividades desenvolvidas em casa, na rua, e mesmo durante o lazer, estão comprometidas com ele. A cada dia gasta-se mais tempo para deslocar-se até o serviço. Perde-se mais tempo nas filas dos bancos, no supermercado, etc. Como identificar tais atividades? Contrário ao que acreditavam os mais otimistas na década de 1960, o desenvolvimento tecnológico não levou a um aumento do tempo de lazer. Assiste-se, hoje, no mundo, a um aumento das atividades laborativas, mesmo se a jornada, propriamente dita, venha se reduzindo ao longo dos anos. Tempo de não trabalho é, agora, de trabalho.

E mais: os postos de trabalho tornaram-se difusos, alargaram-se e passaram a exigir do trabalhador um saber transversal. Os indicadores clássicos de qualificação são vistos com desconfiança e demanda-se saber-fazeres e condutas, até então, impensadas. Fala-se, agora, em competência. A qualificação que era tradicionalmente construída no trabalho e na formação profissional sistemática, cada vez mais, conta com outros espaços e atividades, inclusive as de lazer, para se realizar. Atividades que não as do trabalho, como classicamente definido, são reconhecidas como qualificantes. O trabalho, mais uma vez, não mais se limitando a uma jornada legal, invade a vida do trabalhador, dela se apropria, e dela faz uso.

Debater a redução da jornada pode ser, então, mais do que contabilizar o ganho de postos ou a perda de produtividade, por mais importantes que sejam. É também debater o trabalho e o não trabalho.

Tolerância unilateral

Antônio de Pádua Nunes Tomasi
Jornal O Tempo. 1°Caderno Opinião, p. 9 (07/6/2000)

A tolerância é um elemento de civilidade construído socialmente. Ela é constitutiva das relações humanas, sociais e políticas e pode ser considerada um indicador de democracia. Isso porque permite que aflorem as diferenças e os diferentes, que sejam expressos modos de pensar, de agir e de sentir, de indivíduos ou de grupos. Se a tolerância deve ter limite, e é bom que tenha, a tolerância zero, se constitui na negação de qualquer possibilidade que diferentes e diferenças se expressem. E compreendê-los, no lugar de simplesmente eliminá-los, pode ser uma forma de compreendermos a própria sociedade e o seu modo de se produzir. E, assim, se eles podem representar uma ameaça à democracia, certamente a tolerância zero é a própria ausência de democracia.

Se a tolerância é real, materializada na aceitação do outro (do diferente) e da sua forma de se mostrar (a diferença), ela é também relativa porque depende de valores, de um julgamento social. Em outras palavras, como identificar o tolerante entre a criança de rua que rouba e o cidadão roubado? Se relativa, ela não é unilateral. Afinal, somos nós que toleramos os nossos vizinhos, os nossos filhos, os nossos patrões, os nossos empregados, ou seriam eles que nos toleram? Que valores, então, definem a tolerância?

A proposta de tolerância zero para as manifestações grevistas, forma de controle das manifestações legítimas dos trabalhadores, parece tão-somente procurar calar vozes e apagar histórias destoantes sem ao menos procurar entender o que têm a dizer.

Se a referida proposta nos parece inaceitável, melhor que negá-la é procurar entendê-la como um elemento analisador de um determinado momento histórico. Assim, é interessante notar que ao mesmo tempo em que se propõe a tolerância zero para as manifestações grevistas, o que pode ser entendido como um enrijecimento das relações sociais e políticas, implementa-se a flexibilização das relações do trabalho.

Enfim, de um lado, a palavra de ordem é enrijecer, de outro, flexibilizar. Flexibilizar o que diz respeito aos interesses do capital e enrijecer o que diz respeito aos interesses do trabalhador. De um lado, eliminam-se postos de trabalho, terceirizam-se atividades, joga-se um número cada vez maior de trabalhadores no desemprego e na informalidade, de outro, pratica-se a tolerância zero para as manifestações de descontentamento dos mesmos trabalhadores.

Dois pesos e duas medidas constroem uma lógica perversa que conspira contra o trabalhador. Senão, vejamos: não se propõe tolerância zero para a corrupção, para a impunidade, para a concentração de renda, para os baixos salários, para o desemprego, para a violência, entre tantos males que flagelam a nossa sociedade.

A proposta de tolerância zero é unilateral e precisa na sua intenção e no seu objetivo. Ela visa o trabalhador, expropria os seus direitos fundamentais, deteriora as relações de trabalho. Não percebem os que assim desejam que, diferente do que imaginam, é o exercício da tolerância que aprimora as relações sociais, humaniza, desenvolve o respeito e constrói a cidadania. 

Desemprego e critérios de competência


Antônio de Pádua Nunes Tomasi
Jornal O Tempo. Caderno de Economia, p.8 (26/3/2000)

O discurso dominante sobre a transformação vivida pelo mundo do trabalho nas últimas décadas, embalada, entre outros fatores, por inovações tecnológicas e organizacionais, tem apontado para a flexibilização das relações de trabalho como uma conseqüência inevitável do atual processo de transformação e com a qual o trabalhador deverá, doravante, conviver, e para uma necessária e definitiva mudança do perfil da mão-de-obra, especialmente no que diz respeito aos valores, às atitudes e aos comportamentos, o que ofereceu ao mundo acadêmico importantes subsídios para a construção da noção de competência.

todavia, têm sido acompanhada pela supressão, em números expressivos, de postos de trabalho em vários setores produtivos a qual, em nosso país, em vez de ativar mecanismos de criação e de proteção do emprego, se transformou em desemprego, em trabalho precário, criando um trabalhador descartável e de futuro incerto.

Parece-nos, entretanto, determinista o discurso sobre a flexibilização e tão questionável quanto ao que se refere às novas demandas relativas ao perfil da mão-de-obra. Mesmo que concordemos com mudanças nas relações de trabalho e nas demandas por competência, que importância teriam, hoje, estes discursos se não fossem os altos índices de desemprego? Afinal, é o desemprego ou são as transformações que oportunizam a flexibilização e a demanda por competência?

No plano acadêmico, o debate apenas começou. Sabemos, resumidamente, que a competência tem como referência os novos modos de organização do trabalho e recorre a uma dimensão humana, que aparentemente não se encontra contemplada pela noção de qualificação, cuja referência seria o modo taylorista de organização do trabalho. Sabemos, também, que o desemprego se constitui em uma variável importante quando no estudo das transformações, e mais, que a construção da noção de competência e a superação da noção de qualificação, como querem alguns, não se mostram tarefas fáceis.

Não obstante isto, para o mercado, o problema parece já estar resolvido, sobretudo se considerarmos alguns depoimentos: "Não basta ser qualificado, é preciso ser competente" ou, "Ninguém mais pode esperar entrar para uma empresa e nela se aposentar". Estes e outros depoimentos, expostos de forma acrítica, motivados por conceitos difusos e, não raramente, por preconceitos inconfessáveis, se limitam a propagar e a reforçar o comportamento excludente do mercado, e se furtam a questioná-lo. Assim, conseguir um emprego ou nele permanecer passa a depender de capacidades que, na prática, se mostram sujeitas a interpretações diversas.

Desfigura-se a noção de competência, quando critérios estranhos de seleção, de contratação e de avaliação, podem, nela, se esconder (membro de determinado grupo, rede de influências, relações de parentesco ou de amizade, identificação política, ideológica, entre outros). São critérios que encontram abrigo nos mercados de trabalho feudalizados, como costumam ser os que apresentam altos índices de desemprego.

É como se o trabalhador, depois de encontrar o caminho das pedras, tivesse, ainda, que adivinhar o que deseja o empregador, quando, nem mesmo este, muitas vezes, sabe o que quer. Pretender tamanha "competência" só mesmo em tempos de desemprego.

Os esforços para a construção da noção de competência podem ser detectados na literatura dedicada ao mundo do trabalho a partir dos anos 80. Suas referências mais importantes são as inovações organizacionais e as mudanças ocorridas no mercado. Sua presença no debate acadêmico confirma o esgotamento do modelo taylorista - modo de organização do trabalho que se destacou desde início do século até os anos 70, muito embora se mostre, ainda hoje, uma referência importante para grande parte dos setores produtivos-, e a preocupação em dar uma resposta ao comportamento do consumidor, mais ciente dos seus direitos, mais atento à qualidade dos produtos e serviços, o que ocorre em um ambiente cada vez mais competitivo. Confunde-se, todavia, o período de construção da noção com o dos altos índices de desemprego que se constitui em um dos maiores flagelos vividos pela humanidade neste final de século. Considerando o contexto, que implicações teriam, para o trabalhador, as demandas por competência?

Sabemos que elas emergem no rompimento do mundo do trabalho com um modo particular de gestão de suas atividades, qual seja o taylorismo. O trabalhador não será mais definido, profissionalmente, pelo posto de trabalho, mas, pelo conjunto das suas capacidades, entre elas, criatividade, tomada de decisão, participação... Enfim, capacidades que o lançariam para além da execução de operações, comprometendo-o com os acontecimentos e diferenciando-o como indivíduo. O trabalhador não se limitaria, por exemplo, a resolver problemas, mas se mostraria pronto para se antecipar a eles. A competência indica, então, o reconhecimento da sua condição humana. Capacidades diferenciadas, contudo, são apreciadas, igualmente, de forma diferenciada pelo mercado e oportunizam o estabelecimento de critérios de acesso a ele, o que pode ocorrer independentemente dos fatores que as constroem, ou dos direitos inerentes ao trabalhador. Instituem-se a exclusão e a perversidade como práticas possíveis do mercado de trabalho.

Os altos índices de desemprego que acompanham as últimas décadas do milênio viabilizam estas práticas, e tornam-nas mais visíveis. A oportunidade do emprego e a possibilidade de produzir renda estão logo ali, à mão do trabalhador que não precisa de outra coisa, senão, capacitar-se, evocar e fazer valer suas capacidades, reconstruir atitudes, comportamentos, incorporar novos valores. Ele se torna, então, responsável por sua exclusão. Tudo ocorre como se houvesse, no mercado de trabalho, lugar para todos, exceto para os incompetentes.

A capacitação profissional a todo preço, por conta e risco do trabalhador, tomando direções por vezes incompreensíveis, não tem para ele o sentido positivo de atender a um apelo nacional, nem de promover o seu crescimento profissional, mas o sentido negativo de escapar ao desemprego.

Coletivamente, o trabalhador se debate face às necessidades de manter a sua organização enquanto vê ameaçados os seus direitos e ampliadas as exigências do mercado. Desemprego e competência delineiam um mercado de trabalho em que a mão-de-obra, sempre crescente e mais escolarizada, parece se mostrar pronta para se submeter aos seus caprichos. Nunca se exigiu tanto dos trabalhadores, e tão pouco se tem oferecido em troca. 

Ricos e pobres

Antônio de Pádua Nunes Tomasi
Jornal O Tempo. Caderno Opinião, p.9 (03/3/2000)

A proposta de regionalização do salário mínimo, criando valores diferenciados e defendida sob vários argumentos, parece se fundamentar na ideia segundo a qual algumas regiões do país, por serem mais pobres, teriam maior dificuldade para arcar com um salário nos mesmos valores dos praticados por regiões mais ricas.

Ora, na medida em que o valor do salário mínimo fica atrelado às possibilidades de as fontes pagadoras praticarem-no, e não às necessidades do trabalhador, não estaria a proposta desconhecendo direitos fundamentais destes últimos ou, ainda, não estaria desconhecendo a dimensão social do referido salário? Independentemente da região em que se encontra, o trabalhador não é o mesmo e não tem as mesmas necessidades (alimentação, moradia, saúde, lazer)? Se é nas regiões mais pobres que se encontram as populações mais dependentes do salário mínimo (inclusive aposentados e pensionistas) e mais desprotegidas socialmente, a proposta não contribuiria para aumentar, ainda mais, a distância entre ricos e pobres? Ou, então, não contribuiria para consolidar a pobreza nestas regiões? Se, por algum estranho motivo, regiões pobres devem ser discriminadas, por que não positivamente, atribuindo-lhes os maiores valores do salário? 

Embora, aparentemente, as questões relativas ao salário mínimo digam respeito somente aos trabalhadores de baixa qualificação, elas se estendem ao conjunto dos trabalhadores no exercício de inúmeras profissões e possuidores de diferentes qualificações. Nos países onde é praticado, o mínimo tem se mostrado como uma referência importante para o mercado de trabalho. Estabelece um patamar a partir do qual se dá a negociação salarial, impedindo que sejam impostas e praticadas, pelo mercado, remunerações socialmente inaceitáveis, sobretudo aquelas referentes aos trabalhadores mais desprotegidos. Registre-se, também, a sua importância como mecanismo de distribuição de renda. Sabe-se que em alguns países, onde a renda nacional é bem distribuída, a distância entre o salário mínimo e o chamado teto salarial é bem reduzida.

No Brasil, não obstante a sua perda no poder de compra, que o distancia, enormemente, do valor determinado na sua criação, quando foram consideradas as necessidades básicas do trabalhador e de sua família, o mínimo guarda as mesmas funções: organiza o mercado de trabalho, ajuda a proteger o trabalhador e a corrigir as desigualdades sociais. Assim, um único valor para o salário mínimo, ainda que corroído e insuficiente, pode, senão corrigir as desigualdades, pelo menos, impedir que elas se ampliem.

Nesse sentido, regionalizar o salário mínimo, como proposto, parece contrariar os princípios que o instituíram e nos leva a questionar: afinal, pagamos menores salários porque somos mais pobres ou somos mais pobres porque pagamos salários menores?

Futuro incerto

Antônio de Pádua Nunes Tomasi
Jornal O Tempo, p.9 Caderno Opinião (1999)

 O mundo do trabalho sofre permanentes mudanças que são sentidas no plano das relações de trabalho. As inovações organizacionais e tecnológicas surgidas nas últimas décadas, bem como as transformações econômicas, sociais, políticas e culturais, têm criado oportunidades para que as mudanças ocorram e novas relações de trabalho tomem forma. A questão, todavia, não parece estar na recusa à transformação das relações, mas na forma que devem elas assumir. 

A chamada mundialização da economia incorpora as diferentes dimensões das mudanças vividas pela sociedade brasileira, hoje, e posiciona diversos atores sociais em torno de propostas diferentes e conflitantes. 

No Brasil, os posicionamentos que defendem e incrementam a flexibilização das relações de trabalho, que na prática se tem traduzido pela sua precariedade (desemprego, trabalho ilegal, perda de proteção social, etc.), têm, mais recentemente, defendido para o setor público o mesmo modo de gestão da força de trabalho do setor privado, muito embora este modo de gestão se encontre desfigurado pela presença e pelo rápido crescimento do trabalho informal assistido pela flexibilização. Em outras palavras, os servidores públicos, resguardadas as chamadas carreiras de Estado, devem, segundo esta perspectiva, se adequar à CLT.

São sabidas as inúmeras dificuldades relativas ao nosso funcionalismo público e à máquina administrativa do Estado que merecem de fato que algo seja feito, todavia não se consegue vislumbrar qualquer indicador de que a "celetização" da categoria possa corrigir tais dificuldades.

Não estaria, desta forma, abrindo-se a porta para a incerteza do trabalho no setor público, a exemplo do que já ocorre no setor privado? Na verdade, o descompromisso com o trabalhador já pode ser visto também no interior da máquina administrativa pública que usufrui do seu trabalho em condições precárias e, não raro, à margem da legislação trabalhista. Muitas vezes levados por administrações que chegaram ao poder, estes trabalhadores se encontram sem qualquer perspectiva profissional à espera que as novas administrações possam mantê-los. Manter-se no trabalho, pode, nestes casos e diferentemente do que se prega para o setor privado, não depender da competência do trabalhador, mas da sua afinidade com o perfil político e ideológico da administração pública que chega.

Afinal, o que existiria em comum entre os setores público e privado que os autorizaria a comungar um mesmo modo de gestão da força de trabalho? Comum entre os trabalhadores, sabemos, é a necessidade de formalização do mercado de trabalho, de perspectiva profissional, de proteção social, de investimento em suas formações profissionais, de desenvolvimento de qualificações, elementos, entre outros, que podem ser encontrados em inúmeros países onde o trabalhador é socialmente reconhecido.

Desempregar, pra quê?

Antônio de Pádua Nunes Tomasi
Jornal O Tempo. Caderno Opinião p.9 (9/7/99)

Sabemos que não são as máquinas (sistemas organizacionais etc.) que desempregam os trabalhadores, mas as decisões de criá-las e, sobretudo, de utilizá-las. É verdade que graças a muitas destas decisões a vida moderna alcançou o conforto e a comodidade que grande parte da humanidade conhece hoje. Todavia é igualmente verdade que estes ganhos não têm sido socialmente bem repartidos, e que, costumeiramente, são gerados à custa do emprego de milhões de trabalhadores em todo o mundo.

Como se percebe, decisões desta ordem não se limitam à dimensão técnica do problema. Se não, vejamos: por que decidir pela utilização de máquinas, em substituição aos trabalhadores, quando a sociedade sofre o flagelo do desemprego?

Poderíamos considerar que a substituição se justificaria para determinados postos de trabalho ou para determinados setores produtivos ou, até mesmo, em tempos de pleno emprego, quando poderia ocorrer de maneira generalizada. Seria aceitável, por exemplo, que postos de trabalho que colocam em risco a vida, ou que comprometam a saúde do trabalhador, sejam, incontinentemente, suprimidos. Digamos que seriam, ainda, compreensíveis as justificativas dos setores submetidos à concorrência internacional que alegam sacrificar o emprego dos seus trabalhadores em nome da competitividade, da sobrevivência de suas empresas e da contribuição positiva com a balança comercial.

Mas por que postos de trabalho que não se enquadram nas condições acima são sistematicamente suprimidos? Como explicar que isto ocorra quando, pelo menos, no plano dos discursos, governantes e parlamentares se mostrem empenhados no combate ao desemprego?

Assistimos nos últimos anos à impiedosa destruição de empregos no setor bancário que, inclusive, transferiu parte das atividades dos seus funcionários para os clientes. Agora estamos assistindo à investida do setor distribuidor de combustíveis contra os seus trabalhadores e clientes com a implantação nos postos de gasolina do sistema "self service".

A utilização desse sistema, neste momento, não se constitue em uma ameaça apenas aos milhares de Frentistas distribuídos por todo o Brasil. O efeito multiplicador do desemprego, provocado pela perda do trabalhador desempregado da sua condição de consumidor, arrastará, inevitavelmente, a partir dos Frentistas, um grande número de outros trabalhadores.

A empresa multinacional distribuidora de combustível que anuncia, nas emissoras de televisão, os "novos" serviços, esconde, sob a enganosa mensagem de comodidade e preço baixo, a perversidade da sua decisão: destrói empregos em um dos momentos mais cruciais da vida do nosso povo. Destrói profissões, qualificações e joga trabalhadores e suas famílias na indignidade do desemprego.

Tanto em um como em outro setor, as decisões tomadas parecem distantes dos interesses da sociedade. No setor bancário, a população sofre nas filas e é obrigada a arcar com as elevadas taxas dos serviços, enquanto aumentam os lucros dos bancos e o desemprego entre os seus trabalhadores. No setor de distribuição de petróleo, a trajetória promete ser semelhante: constata-se que muitos postos de gasolina tradicionais praticam preços inferiores àqueles praticados pelos postos "self service", enquanto os trabalhadores destes últimos engrossam os índices de desemprego. 

A Europa introduziu o "self service" nos postos de gasolina no início dos anos 80. Uma década depois, com o aumento do desemprego, se deu conta do equívoco cometido. Pior, descobriu que o retorno ao sistema tradicional, medida que poderia reduzir o desemprego, se mostrava mais difícil do que a implantação do "self service".

Não se trata, aqui, de refutar o uso de tecnologias pelos setores produtivos, mas de questionar decisões que nos parecem incompatíveis com o momento atual. Na verdade, elas estão sendo tomadas no Brasil com, no mínimo, uma década de atraso e no momento em que o mundo desenvolvido procura corrigi-las. Estamos atrasados e na contra-mão.